10001 Casa em Carção
Localização:
Carção – Vimioso
Ano:
2010-2011
Área de construção: 232 m2
Promotor: Privado
Arquitectura: Humberto Fonseca + Humberto Silva + EIRA Atelier (Sónia Moreira)
 Especialidades: Carlos Figueiredo

Este constituiu o nosso primeiro projecto construído, realizado num contexto rural-urbano de difícil definição. As aldeias do nordeste transmontano possuem um carisma singular, proporcional à quase completa descaracterização de que foram alvo a partir de meados dos anos 60, com a proliferação das “casas de emigrante”, hoje tipologia dominante em muitos destes aglomerados.

Esta nova uniformização tornou-se, em grande medida, a sua nova identidade, elevando as cérceas das malhas urbanas e introduzindo soluções e usos frequentemente peculiares. Nesse sentido, a aldeia de Carção, no concelho de Vimioso, reflecte este fenómeno: é hoje difícil encontrar construções cuja verdade construtiva revele ainda a beleza e robustez da arquitectura transmontana — marcada pela lógica de adição e pela densidade da pedra. O seu elemento mais característico — a escada exterior de acesso às habitações, sobreposta aos estábulos e lojas — desapareceu quase por completo ou subsiste apenas de forma residual, num mimetismo sem sentido.

A aldeia foi, contudo, protegida do carácter amorfo que fustigou outros aglomerados deste território devido a uma circunstância peculiar: a presença histórica de descendentes de cristãos-novos estruturou a malha urbana em torno de dois pólos — a Praça dos Cristãos e a Praça dos Judeus. Assim sobrevive, ainda hoje, muito da dinâmica social que caracterizou o quotidiano da aldeia ao longo dos últimos quatro séculos.

A casa insere-se na rua que liga estas duas praças, afirmando-se como uma extensão do percurso público através de um corredor contínuo com pavimento de granito. Este elemento organiza toda a habitação: transmuta-se em escada, lucernário e, novamente, corredor, culminando numa varanda sobre a rua. Ora ventilando, ora iluminando, ora funcionando como antecâmara de estar, é a partir deste eixo que se acede a todos os compartimentos.

A intervenção não pretende mimetizar o passado, mas sim reinterpretar a memória do acto de subir, culminando numa abertura franca sobre a rua — aqui assumida como varanda e lugar de eleição. Trata-se de um espaço que ganha particular sentido em dia de procissão, quando as colchas vestem as varandas e janelas mais altas e os habitantes depositam as suas oferendas a Nossa Senhora das Graças.

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